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Entrevistando uma economista para falar sobre a economia feminina. Que tal?

Nesta quinta-feira dia 28/05, fizemos mais uma LIVE no nosso instagram e foi um papo que corria do corriqueiro. Falamos sobre a economia gerada por mulheres, seus valores e suas conseqüências ao ser pouco ou muito potencializada.

Para uma tarefa dessas falamos não com uma socióloga ou antropóloga ou uma estudiosa do assunto somente, e sim a economista Iana Barenboim, especialista em desenvolvimento empreendedor para mulheres em situação de muita vulnerabilidade, que vai desde a pobreza extrema até situções de alto risco como guerras. Afeita da ponte área Rio-Maputo, capital de Moçambique, tivemos um tempinho com ela devido ao Conora Vírus.


Escolhemos uma economista para falar sobre algo tão humano ou humanizador porque queríamos alguém que traria números e estatísticas para encararmos com embasamento pra lá de racional a sub-valorização do trabalho feminino através dos tempos.

Pra quem não teve oportunidade de assistir a nossa LIVE, ela está disponível no nosso IGTV e você pode assisti-la quando quiser.

Abaixo, nossa pauta que depois se transformou em um grande papo. bjos e esperamos que você goste.

WASABI: Qual a sua formação Iana?

Sou economista especialista em desenvolvimento internacional com foco em empreendedorismo, crescimento empresarial, gênero e desenvolvimento de habilidades técnicas para empreendedores.

Fui COO e co-fundadora do Templo, primeiro espaço de co-working criativo do Rio, onde conheceu a WASABI. Durante a minha gestão a empresa gerenciava 3 casas e mais de 200 clientes.

E também CFO da Voopter, startup de venda de passagens aéreas que não cobra taxa.

Mais recentemente, Diretora de Planejamento estratégico do Olabi, organização social que trabalha para a democratização das tecnologias, em especial para mulheres.

Há cinco anos trabalho no MUVA, um programa do departamento de desenvolvimento internacional do governo da Inglaterra que investiu mais de 20 milhões de libras para desenvolver soluções inovadoras para a inclusão econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade. O programa foi implementado em Moçambique e suas soluções foram exportadas para vários países, inclusive pro Brasil. Iana participou de toda a construção do programa, desenvolveu toda a estratégia de setor privado e empreendedorismo e hoje ocupa posição estratégica de business development lead no novo momento do MUVA. Eles fizeram a transição de um programa com data pra acabar para uma instituição com sede em Moçambique e presença internacional.

Isso ocorreu porque ao longo da experiência do programa MUVA, eles desenvolveram um monte de novas abordagens para a inclusão econômica das mulheres, sendo super bem sucedidos em aumentar o acesso ao primeiro emprego em quase 30% por exemplo. Também fizeram projetos que duplicaram o lucro das empreendedoras de subsistência.

Por conta de resultados muito bons, o MUVA então se torna uma instituição e sou uma das fundadoras.

WASABI: Qual a importância da inclusão econômica de mulheres na sociedade?

Segundo pesquisa do Banco Mundial, a inclusão econômica das mulheres e a igualdade de gênero poderiam acrescentar 12 trilhões ao PIB mundial. Ou seja, se a gente ganhasse igual aos homens e pudesse dividir as tarefas domésticas e da maternidade todo mundo ficaria mais rico.

Além disso, a independência financeira tem um poder muito grande na igualdade dentro de casa. Isso pode diminuir questões de violência doméstica e aos poucos contribuir para a diminuição de casos de relacionamentos abusivos, por exemplo.

De forma mais individual, a inclusão econômica das mulheres também pode trazer a oportunidade de aumentar o nosso poder interno e a nossa auto-estima. Saber que nos podemos ser quem quisermos e de fato ir lá e fazer pode ser muito empoderador.

WASABI: Quais os fatores que podem atrasar essa inclusão?

Igualdade de gênero virou pauta de embate entre governo e oposição, né? Mas a verdade é que para além do caráter ideológico, há um caráter sócio econômico importante.

A sociedade patriarcal que a gente vive mantém esse ciclo de exclusão e as normas sociais as quais vivemos aprofundam essa desigualdade de gênero. Por exemplo, eu cresci ouvindo que era uma princesa, que um dia um príncipe encantado chegaria e que eu ia ser feliz. Minha mãe me estimulava muito a ser melhor nos estudos e tal, mas o discurso acaba sendo contraditório.

Meus irmãos por outro lado cresceram ouvindo que eles poderiam ser quem eles quisessem e que a sociedade esperava que eles fossem produtivos. De mim, se eu não fosse produtiva, tudo bem, pq seria mãe e cuidaria da família.

Nenhum desses conceitos está errado a meu ver. O problema é a forma.

Que a mulher gesta a vida e alimenta o filho exclusivamente nos primeiros meses de vida é incontestável. Que a vida da mulher se resume à maternidade é discutível e passível de escolha.

O problema é que quando uma empresa, por exemplo, não tem licença paternidade, só maternidade, ela está impondo uma norma social que é: só a mãe tem direito de cuidar do filho exclusivamente. O pai não tem, portanto precisa continuar sendo produtivo.

Isso significa nos dias de hoje que empresas preferem contratar homens em idade reprodutiva a mulheres porque não querem pagar licença maternidade. Ou que preferem contratar alguém que é pai e não alguém que é mãe, pq a mãe, mesmo de filhos mais velhos e que não dependem exclusivamente dela pra sobreviver, tem mais obrigações domésticas e familiares que o pai e isso piora sua produtividade.

Esse é só um exemplo, tem vários outros, como por exemplo, em comunidades de pessoas em situação de vulnerabilidade, escolhe-se o filho homem para ir à escola e a filha fica pra ajudar na casa e cuidar dos irmãos. Isso é uma norma social.

Políticas públicas que focam nesses comportamentos da sociedade são importantes pra gente poder ter espaço de fazer mudança. Por exemplo, na Finlândia, homens e mulheres já tem licenças maternidade e paternidade iguais. Vamos observar nos próximos anos qual é o impacto disso no mercado de trabalho, na violência contra as mulheres, na divisão de tarefas domésticas e, em última instância, em relação a igualdade de gênero.

WASABI: Está havendo um agravamento desses fatores durante o COVID-19?

Durante a pandemia essas questões que já eram muito graves tipo vulnerabilidades domésticas e precariedade do trabalho ficaram mais acentuadas. Por exemplo, a violência contra a mulher cresceu muito por conta do confinamento. De acordo com a ouvidoria nacional dos direitos humanos esse tipo de violência cresceu 28% em abril de 2020 comparado a abril de 2019. Em SP sozinho, por exemplo, cresceu quase 45%. Vários especialistas alertam que cresceu ainda mais do que os números mostram porque as mulheres têm medo de reportar violência, não serem atendidas e continuarem confinadas em casa com seus abusadores correndo risco de vida. Então esse é um assunto muito grave que precisa ser tratado com máxima urgência e eficiência.

Outra coisa que se agravou muito é a informalidade e a precariedade do trabalho, em especial das mulheres negras no Brasil. Quase 48% das mulheres negras brasileiras são trabalhadores informais. E dessas, grande parcela são chefes de família.

Um estudo recente da Organização Internacional do Trabalho aponta que em países de renda média, tipo o Brasil, os trabalhadores informais vão ficar 21% mais pobres.

É necessário um recorte de raça e gênero nessa porcentagem, porque por exemplo, as mulheres negras somam o grupo que mais foram afetadas com as medidas de confinamento porque em grande parte trabalham em áreas consideradas de risco tipo manicure e domésticas.

O coronavoucher foi efetivo nesse sentido ao reconhecer a vulnerabilidade dos trabalhadores informais, em especial das chefas de família, aumentando de 600 para 1200 reais o benefício.

WASABI: Porque é importante incluir as mulheres na tomada de decisões de política pública e de retomada da economia?

Esse caso do coronavoucher foi uma vitória da bancada feminina do congresso. Mulheres de todas as correntes políticas se juntaram em prol de lutar pelas mulheres em situação de mais vulnerabilidade. Isso é uma clara amostra da importância de se ter mais mulheres pensando política pública.

Por exemplo, duas economistas (Sônia Bahlotra e Irma Clots-Figueras) mostram num estudo feito na Índia que em assembléias distritais com mais mulheres eleitas há redução significativa na taxa de mortalidade infantil. Elas mostram também que existe uma correlação positiva entre mais mulheres políticas e a quantidade de crianças que terminam o ensino fundamental.

Outro exemplo é o de Ruanda que 25 depois do genocídio Tutsi de 1994 que matou mais de 800 mil pessoas e estuprou entre 200 e 500 mil mulheres, estima-se, tem a maior taxa de presença feminina em um parlamento no mundo. Lá 64% do parlamento é composto por mulheres. Aqui no Brasil essa taxa é de 15%. Brasil subiu da posição 154 para 134 no ranking mundial depois da eleição de 2018. Mas ainda temos bastante caminho a percorrer.




Várias reportagens saíram recentemente mostrando que países liderados por mulheres estão melhor no combate à pandemia em relação a países liderados por homens. Atribuiu-se isso a sociedades que tem mais abertura, empatia e mais escuta e que, portanto se abriram a eleger mulheres presidentes.



O ponto é que a coisa da igualdade de gênero, com respeito a opiniões contrárias e debates construtivos, não podem ser cooptados por um lado ou outro do jogo. O caminho do meio, pensando com dados, evidências e menos emoção, pode nos dar respostas que são verdadeiramente construtivas em termos socioeconômicos. A gente precisa sair desse debate ideológico extremista dos dois lados e olhar pra questão de uma forma menos emocionada.



Trouxemos muitos pensamentos que devem calar fundo dentro de nós mulheres. Devemos lembrar que a nossa causa é mais do que uma causa feminista e sim uma causa feminina. Precisamos cuidar mais de nós, precisamos estar atenta ao nosso papel, nossas responsabilidades civis. Se não advogarmos a nosso favor, ninguém o fará. Os homens não são nossos inimigos, eles simplesmente estão ocupados demais defendendo suas próprias causas, fazem isso há mais de três mil anos...



Temos que olhar para o nosso momento e exigir de nós mesmas posicionamento, representatividade e ativismo. Somos animais políticos, caso queiramos ou não, pelo simples fato que política é tudo que envolva a polis, a cidade, nosso entorno, a vida em sociedade.

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